SEXO, RISOS E RAJADAS: A PRESENÇA FEMININA NA GUERRILHA

 

 

José Ferreira do Nascimento – USP

 

 

Este estudo propõe a análise das personagens femininas inseridas no contexto das guerras de guerrilhas nas obras Mayombe, de Pepetela, pseudônimo do autor angolano Artur Maurício Pestana dos Santos e, Em câmara Lenta, de Renato Carvalho Tapajós, tendo por base a teoria defendida por Benjamin Abdala Jr., na qual o discurso político – a nível consciente ou inconsciente – coloca-se como elemento estruturador do texto artístico[1].

As figuras femininas ocupam lugar de destaque em ambas as obras, cujos textos (re)visitam o período histórico dos chamados  ‘anos de chumbo’ compreendido entre o final da década de sessenta e meados dos anos setenta no Brasil e coincide com o período em que Angola vivia o drama de sua luta de libertação Nacional.

Assim, acreditamos, Ondina, Leli e Manuela no texto angolano e a personagem não-nomeada do texto brasileiro possam nos revelar – pelo viés ficcional, –  um pequeno panorama da época (re)visitada. Antes, contudo, de proferirmos algo a respeito das personagens em questão, convém posicionarmos o leitor quanto ao referencial das obras e seus autores.

De acordo com o Professor Carlos Serrano, Mayombe, pode ser encarado como um romance social, uma vez que, sendo obra ficcional ‘é escrito no momento de vivência do autor, onde o escritor, o militante e o cientista social, se relacionam intimamente para, através desta obra, captarem, uma realidade que faria parte de uma história imediata’[2].  É o fruto da experiência deste na frente de batalha da luta contra o colonialismo português e, discute, a partir dos embates entre componentes de um grupo de guerrilheiros, na floresta do Mayombe, norte de Angola, os entraves à plena concretização do projeto nacional angolano, ao mesmo tempo em que propõe algumas respostas aos problemas detectados, sobretudo a partir das reflexões e ações da personagem Sem Medo.

Em Mayombe, a narrativa está distribuída em cinco capítulos, um dos quais recebe o nome da personagem ‘Ondina’ ressaltando a importância da presença feminina naquele espaço, à princípio ‘território’ tradicionalmente masculino.  ‘A Missão’,  ‘Base’,  ‘A Surucucu’, e ‘A Amoreira’; complementam a história.

Já o romance de Renato Tapajós efetua uma reflexão sobre os rumos da luta de guerrilhas no Brasil, desenvolvendo a ação de Em câmara lenta, tanto no ambiente urbano quanto no rural, sob a ótica de um narrador-protagonista, ele próprio envolvido na guerrilha urbana.  Assim, as ações na cidade são conduzidas por um herói não nomeado que, numa situação-limite – sabe que irá morrer em uma armadilha montada pela polícia – rememora sua vida e suas crenças. Paralelamente, no romance, segue-se a aventura de um grupo de guerrilheiros embrenhados na selva amazônica, na tentativa de participar da guerra do Araguaia, fadados, também eles, à derrota.

O texto Em câmara lenta, de Renato Tapajós é um romance escrito em 175 páginas, subdivididos em capítulos fragmentados e não-nomeados, cuja cena central recorrente nos é mostrada em flashes e  video-tapes dosados e intercalados por outras ações.  Uma personagem protagonista apenas mencionada pelo adjetivo próprio “Ela”, vive o drama central captados pela “Camera”[3] em seis momentos distintos, distribuídos ao longo da narrativa.

O entendimento global do romance só se dará após o leitor captar as seqüências das cenas espalhadas e desordenadas, ( em número de seis ) e remontá-las, tal qual as peças de um quebra-cabeças.

Portanto, ainda que escritos em contextos situacionais aparentemente diversos, os romances Mayombe, ( 1971 ), de Pepetela, ou, Artur Maurício Pestana dos Santos ( angolano ) e, Em câmara lenta, de Renato  C. Tapajós, ( brasileiro ) apresentam, no que se refere ao tema e a construção das personagens, elementos que possibilitam sua aproximação.  Em ambos a questão da guerrilha avulta e é ela que possibilita o desenho das personagens e suas ações propiciando, assim, uma nova leitura e interpretação dos textos.

As mulheres do Mayombe:

Manuela e Leli, não se configuram como personagens, na acepção exata do termo, uma vez que, ambas têm seus perfis constituídos pelas evocações de seus respectivos amantes guerrilheiros; Teoria em relação a primeira e; Sem Medo, em relação a segunda, entretanto, ambas explicitam motivação e sustentáculo desses combatentes nas lutas travadas interna (sentimentalmente) e, externamente (contra o inimigo).

Teoria é o primeiro guerrilheiro a assaltar a narrativa, num dado momento, a falar de si numa rápida apresentação e, a seguir para nos apresentar Manuela, mulher por ele amada, perdida em sua terra natal – a Gabela – e, renunciada por este, por motivos raciais. Assim, essa mulher, que não é guerrilheira, se faz presente como a razão que o levou à guerra de libertação (e de que libertação poderíamos estar falando, do guerrilheiro ou de seu país?).  Ele mestiço (filho de pai branco e mãe negra), sofria na pele o problema da discriminação advinda dos dois lados (negros e brancos), fugiu para não ter de assumi-la e, consequentemente, seu filho que nasceria em breve.  A figura de Manuela vive no pensamento desse guerrilheiro que nos revela o seu amor através de seu monólogo interior e, por vezes, questiona ele o fato de Manuela não ter sido forte o suficiente para retê-lo, ou, teria sido ele o fraco em não assumi-la, mesmo contra todos os preconceitos?

(...) fugi dela porque ela estava a mais na minha vida, a minha vida é um esforço de mostrar a uns e a outros que há sempre lugar para o talvez Manuela. Manuela, amigada com outro, dando suas carícias a outro. E eu, aqui, molhado pela chuva-mulher que não pára, fatigado, exilado, desesperado, sem Manuela. ( Mayombe, pp. 12/13 )

O sofrimento demonstrado por Teoria, ao final de sua confissão, revela que Manuela permanece em sua vida. O choro constante pela perda, ou ausência desse amor explica-se pela metáfora ‘chuva-mulher’. É a impossibilidade de reter a água, as lágrimas chuvas que turvam seus olhos. A água que gera a vida, a vida de seu filho, que talvez jamais o conhecesse. A mesma chuva-mulher que incomoda, são águas turbulentas, na impossibilidade da reconciliação porque Teoria teria que reconciliar consigo mesmo, ultrapassar as barreira que ele mesmo, ou, o colonialismo criou?

Por sua vez, Leli, amante do Comandante Sem Medo, constitui-se noutra figura feminina de destaque da obra, apesar de ter o perfil traçado pelo olhar do seu parceiro.  Vivem, ambos, encontros e desencontros até que ela provoca primeiro rompimento ao aproximar-se de outro homem, buscando inédita experiência.  Sem Medo age friamente a fim de seduzi-la, recuperar seu amor, para depois, então, vingativamente, abandoná-la se concederem a chance de uma vida em comum.

Leli, era também mestiça, o que decretou sua morte, ao ser apanhada pela UPA, depois da revolução de 4 de Fevereiro, quando Sem Medo, conseguiu fugir para o Congo.  Ela tentava reencontrá-lo, reatar com ele, que por sua vez, confessa, à essa altura arrependera-se de tê-la humilhado.  Após a  morte de Leli, Sem Medo passa a combater por ela, embora seu orgulho ainda impeça de dizer que o faz por amor.

(...) Fora aí, na cegueira da floresta e da chuva, que Leli viera e se impusera de novo.  A angústia perseguiu-o até dar a ordem de fogo.  O grito de fogo saíra-lhe como uma libertação, um urro de animal fugindo da armadilha (...) Mais uma vez Leli voltava e se impunha... ( Mayombe p.51).

Essa personagem ( Sem Medo ) sente-se culpado pela morte da mulher amada, e ela passa a ser, então, a razão de sua vida e, quem sabe, de sua morte.  O orgulho de Sem Medo decretou a morte de sua amada.  Ao sofrer as torturas da consciência, transforma essa energia brutal em explosões de risos e rajadas, no campo de combate, por ela.

“ – Fui o causador de sua morte, não é isso que ias dizer?

Sim, (...) involuntário, mas o que importa?  Leli viva não me conseguiu reconquistar.  Mas, a sua vingança foi sua morte.  Ligou-me fatalmente a ela, num sentimento que não é de maneira nenhuma o amor, mas que me amarrou.  Hoje não posso amar nenhuma mulher, pelo medo de lhe fazer mal...”  ( Mayombe, p.159 )

Em seu diálogo com o Comissário, o Comandante, afinal, revela seu medo. O invencível guerrilheiro tem medo de se ligar a alguém sentimentalmente e nega o amor por Leli, entretanto, que outra mulher poderia satisfazê-lo ?  Leli, que fora sua aluna ( estudavam Marx juntos ), sua amante, e que acabou perdendo a vida na tentativa de reencontrá-lo. Ela, que poderia estar a seu lado no Movimento, na luta, tornou-se mais um motivo para o guerrilheiro combater, esse combate interno, pior do que o externo, travado contra o inimigo.

         Pensas muito na Leli?

         Sim, antes duma ação. Isso, aliás, dá-me força para combater.

         É por isso que lutas?

         (...) Não, penso que não.  Já antes lutava. Nunca é uma só uma a razão que leva um tipo a lutar.  (Mayombe, p. 160)

A figura de Leli representa, entre outros aspectos, a difícil tarefa de tentar entender a inconstância do relacionamento entre duas pessoas.  Qual o motivo do fracasso nesse relacionamento ?  A rotina ?  A busca de novas experiências ?  Por que o rompimento e a reconciliação parcial entre Sem Medo e Leli ?  No decorrer de nossa investigação cremos,  seja possível buscar novos elementos para analisar mais detalhadamente essa personagem.

Porém, se Manuela e Leli aparecem na obra como evocações, apenas nas lembranças de seus respectivos parceiros o mesmo não acontece com Ondina, figura feminina forte e independente.  É professora e nesse contexto difere das anteriores, tem ela uma participação efetiva na guerrilha.  Lembremos que, historicamente, uma das metas do MPLA – e  de outros movimentos revolucionários – era educar, conscientizar as pessoas primeiro, para depois arrebatá-las para o processo de luta.  A politização fazia parte dos planos de conquista e da organização dos futuros quadros políticos.

Enquanto lecionava numa base, Ondina vive um romance com o Comissário Político, contudo, diante da hesitação do mesmo em assumi-la como mulher (não como amante casual) e, face a inexperiência do jovem em se relacionar sexualmente, ela parte em busca de outra relação afetiva, desta vez com André, camarada jovial, ocupando um cargo político na Base guerrilheira, antipático e corrupto aos olhos do Comissário Político.

Entre idas e vindas, rompimentos e reconciliações, Ondina, sedutora, aproxima-se do Comandante Sem Medo, pelo qual sente enorme atração, mesmo sendo este amigo de seu noivo João (o Comissário).  Enfim uma personagem tão instável nos gestos e comportamento quanto nos remete a simbologia de seu próprio nome.  Em sucessivas ondas de amor e sexo, ausências e encontros, desejos, carinhos e despedidas converte-se em dominadora, ganhando seu espaço no território dos guerrilheiros.

Seguimos aqui a trajetória da menina Ondina, deflorada aos quinze anos de idade, aos vinte e dois torna-se mulher madura, impondo-se perante os homens à sua volta, imbatível no jogo da sedução, tal as musas, ninfas das águas, divindades a que marinheiro nenhum poderia resistir, visualizados nos escritos mitológicos – aspecto que denota novas interpretações a partir de seu próprio nome. Carlos Ervedosa[4] aponta para o significado das divindades em sua escrita

As divindades, embora existindo em numerosa variedade, apenas se fazem representar pelas sereias ou, localmente, quiandas. Posto que vivendo nas profundezas do mar, rios, montes e bosques, é nos cursos de água que, de maneira geral, figuram nas histórias. Operam prodígios, sobretudo na fecundação de estéreis.  Anunciam em sonhos. 

Ondina acaba por seduzir o guerilheiro Sem Medo, essa era a intenção, mesmo que por uma noite apenas.  Depois da experiência sexual vivida com este e, diante da impossibilidade de o prender para si, resolve assumir o amor que sente pelo Comissário e a tarefa de torná-lo um homem experiente.

Para aqueles que viam na figura feminina do período colonial o papel meramente submisso, Ondina é personagem  excepcional, exatamente porque mulher exigente, dominadora que aos poucos revela-se, compromete o esquema tradicional, rompe com determinados conceitos e, de certa forma, causa fascínio, seduz o homem, conforme demonstra o diálogo entre o Comissário e Sem Medo:

-          Numa sociedade em que o homem controla os meios de produção, onde é o marido que trabalha e traz o dinheiro para casa, é natural que a mulher se submeta à supremacia masculina.  A sua defesa social é a submissão familiar.

-          - No geral é isso. Mas há mulheres que não se submetem, que encontram no amor o contrapeso a essa inferioridade social.  E mesmo sem trabalhar, estando dependentes economicamente, são capazes de jogar taco-a-taco com o homem(...)

-         São exceções. Repara que há séculos de submissão.  Isso marca. (Mayombe, p.164)

Nesse contexto, Ondina é a figura que transcende a realidade do meio social marcadamente machista explicitado pelos guerrilheiros.  Este ciclo de submissão da mulher, começa a ser rompido a partir de determinadas tomadas de posições, algumas, sem dúvida, radicais como no caso das mulheres guerrilheiras.

 

Feminina: Sensual, Corajosa e Mortal:  Agonia  Em câmara lenta

 

(...) o impossível é o horizonte de Antígona e eí-la pronta a cometer um tríplice crime político: ultrapassar os muros da casa (...) entrar na política pela subversão da Lei: e finalmente, desafiar não só a lei do Estado, que condena seu irmão, mas a lei dos homens que a condena, mulher, ao silêncio. (Rosiska Darcy de Oliveira ).[5]

Romper as correntes, talvez as mesmas que a filha de Édipo e Jocasta tentara.  O destino de Antígona talvez ainda seja o mesmo. Acompanhar o pai em sua loucura até o dia de sua morte; assistir a luta de seus irmãos Etéocles e Polinice pelo poder até que os dois sucumbam em um combate mortal; desafiar a lei decretada pelo Estado à qual seu irmão Polinice deveria ter o corpo entregue aos cães e aos abutres; insepulto,  enquanto ao outro caberia honras militares.  Presa enquanto tentava, com as mãos, enterrar o ente querido, Antígona é condenada a ser enterrada viva, sob as ordens de Creon, seu tio.

As ações da mulher guerrilheira, protagonista da obra Em câmara lenta, de Renato Tapajós, certamente revelam muito mais do que a realidade ditatorial repressiva poderia permitir, assim, por alguns anos, o romance foi parar no index da ditadura militar, proibido de circular.

 “Ela” , assim nos é apresentada a personagem de Renato Tapajós. Características: companheira, solidária, amante e, quando a serviço da causa à que se propôs; mortífera.

Em sua narrativa fragmentada, Tapajós vai nos apresentando, através de um narrador que alterna entre 1ª pessoa e Camera  a composição dessa mulher que desde a primeira cena inspira curiosidade e medo.

O comportamento das mulheres tem sido objeto de estudos recentes em todas as literaturas – quer sejam em países de língua portuguesa ou não – isto, em parte, se deve ao fato das recentes conquistas realizadas por elas em todos os setores, onde até recentemente prevaleciam os conceitos machistas de discriminação; social; político e cultural.

Que juízo se poderá fazer da personagem que além das responsabilidades atribuídas à ela, na qualidade de mulher que, num determinado momento, se engaja na guerra de guerrilhas ?

O texto Em câmara lenta, de Renato Carvalho Tapajós é um romance escrito em 175 páginas, subdivididos em capítulos fragmentados e não-nomeados, cuja cena central recorrente nos é mostrada em flashes e video-tapes dosados e intercalados por outras ações. Essa  personagem protagonista apenas mencionada apenas pelo adjetivo próprio “Ela”,  vive o drama central captado pela Camera em seis momentos distintos, distribuídos ao longo da narrativa.

De acordo com o estudo organizado por Mercedes Bertoli Martins, Em câmara lenta: um jogo de armar, ( pp. 36/37 ) as engrenagens para o entendimento formal do romance está subdividido em seis sequências espalhadas, desordenadas e que, ao leitor, cabe remontá-las numa espécie de quebra-cabeças.  Assim teríamos:

1-      Conflito do narrador-personagem ( Eu )

2-      Passado do narrador-personagem ( “Eu” ou “Ele”)

3-      Atividade urbana da guerrilha

4-      Guerrilha na Amazônia ( guerrilha rural )

5-      Passado da personagem guerrilheira ( Ela )

6-      Em câmara lenta.

Procuraremos, para ser breve, rastrear as ações das seqüências 5 e 6  que revela-nos as características da mulher guerrilheira, móvel detonador de todas as ações posteriores de seu par – o narrador-protagonista – na guerrilha urbana.

Após a saída de uma reunião  do Movimento – do qual faziam parte – três jovens são parados numa blitz policial.  Ao se verem flagrados no interior de um veículo e armados; numa época em que isso significaria prisão, tortura e possivelmente a morte, após um breve momento de hesitação, a reação fulminante da mulher guerrilheira, cuja passagem é assim descrita

Como em câmara lenta: ela se voltou para trás. Sua mão descreveu um longo arco, mas interrompeu o gesto e desceu suavemente na bolsa (...) os dedos se fecharam na coronha do revólver (...) os olhos agora duros, apanhando de relance a imagem do policial que bloqueava a porta. O revólver disparou, clarão e estampido rompendo o silêncio. (Em câmara lenta p. 16 )

 

Retirada estratégica?  A cena é interrompida deixando no ar mistério e curiosidade sobre o que teria acontecido posteriormente.   Paralelamente somos levados à outro cenário às margens do Rio Negro, no Araguaia, para acompanhar a saga de um grupo de jovens guerrilheiros liderados por um venezuelano tentando organizar a guerrilha no campo.

A organização rítmica surpreende, na medida em que, a retomada da cena se dará por assaltos, após sucessivos cortes de cena que, por um lado, mostram-nos as divagações de um narrador-personagem a respeito dos fatos políticos, as reflexões sobre os rumos da luta armada e o seu envolvimento sentimental com “ela” – a mulher enigmática e, por outro lado, acompanhamos as desventuras de um venezuelano e seis guerrilheiros, caçados pela polícia e ignorantes a respeito do próprio envolvimento na luta no campo.

Percebemos que a estratégia discursiva remete-nos à uma das características da própria guerra de guerrilhas:  atacar dois ou mais  alvos simultaneamente em diferentes locais. 

A cena central, quando retomada, expande-se  em dois sentidos,  a Camera nos remete à momentos anteriores e posteriores àqueles visualizados na primeira ação.

 

(...) Como em câmara lenta: o policial pediu para ver o que tinha na maleta e na maleta tinha uma metralhadora: ela se voltou para trás... (Em câmara lenta p.25 )

 

Assim a cena expande-se e complementa-se com outros fragmentos que, contudo, não servirão ainda de base para o esclarecimento total dos acontecimentos, é possível visualizar  o recurso do “gancho” para segurar o leitor.

(...) O policial atingido na testa, foi lançado para trás (...) as portas do carro se abriram e os três saltaram, disparando suas armas.  Ela atirou outra vez e outro policial que levantava a metralhadora caiu... Os policiais foram atrás dela atirando sempre. ( Em câmara lenta p. 25 )

A ação prossegue como num filme de aventura, a tentativa desesperada de fuga, a ânsia que contamina o leitor, na expectativa do desenrolar dos acontecimentos que são sistematicamente podados.  Começamos a perceber a coragem; a valentia dessa mulher, guerrilheira, exímia atiradora, e capaz de tomadas de decisões rápidas.  A intensidade e o clima são bruscamente interrompidos por sucessivos cortes de cena.

O perfil exato dessa mulher só será revelado ao final do romance pela memória do narrador-personagem,  “ela” que nunca hesitava no perigo, nas tarefas mais difíceis, por várias vezes se lançara sozinha frente ao inimigo.  A pontaria infalível. Segurava a arma como se fosse um bichinho de estimação ( com carinho ).  Firme como uma rocha. Nunca duvidou da Revolução, da vitória e sempre procurava reanimar à todos diante das adversidades.

Essas revelações se darão após a prisão, tortura e a conseqüente morte dessa personagem, nos porões da ditadura militar e ao mesmo tempo em que seu parceiro opta pela tentativa de vingança numa ação suicida.  Ele ainda declara

Por trás da decisão e da calma: ela era uma criança insegura, uma menina perdida num mundo de violência, uma garotinha terna e doce.  (Em câmara lenta p.166)

Subseqüente à essas revelações, o painel se abre mais uma vez para o esclarecimento total dos fatos posteriores à prisão.  A reconstituição se dá a partir da saída dos jovens, da reunião do Movimento a que pertenciam.  O leitor então é forçado a reviver os fatos – pela sexta vez -, o drama da personagem, numa forma marcante de repetição.

 

Furiosos, os policiais tiraram-na do pau-de-arara, jogaram-na no chão. Um deles enfiou na cabeça dela a coroa-de-cristo: um anel de metal com parafusos que o faziam diminuir de diâmetro. (...) O policial começou a apertar os parafusos (...)  Quando os ossos do crânio estalaram e afundaram, ela já havia perdido a consciência, deslizando para a morte com o cérebro esmagado lentamente. ( Em câmara lenta p. 168 )

 

Renato Tapajós em entrevista concedida à Profa. Mercedes Bertoli Martins[6] revelaria que não só essa personagem fora extraída da vida real, como parte dos acontecimentos narrados também.

Ela era real. Existe. Existia uma pessoa real que foi morta exatamente daquela maneira.  Aquela seqüência toda anotada “em câmara lenta”- que conta a prisão, o momento da prisão, a tortura, etc. – aquilo é real.  Aconteceu exatamente daquela maneira.  É uma reprodução bastante fiel do que aconteceu.

 

Entretanto, somente agora, após aproximadamente três décadas, quando os acontecimentos daquele período começam a ser revisitados, conseguimos identificar a pessoa de que se fala na obra.  Tratava-se de Aurora Maria do Nascimento Furtado, codnome “Lola”, presa pela repressão, torturada e morta, dada como desaparecida em setembro de 1972.

Concluindo poderíamos dizer que há um engajamento dos autores no panorama político e social desta época enfocada, no qual as mulheres guerrilheiras exerceram um papel extremamente importante e  no qual visualizamos um projeto utópico nação, no caso angolano, enquanto a ausência deste se faz notar no caso brasileiro. As duas obras, porém, servem-nos de referência para reflexões no contexto atual no panorama  das literaturas de língua portuguesa.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ABDALA JR., Benjamin.  Literatura, História e Política. São Paulo: Ática, 1989.

ERVEDOSA, Carlos. Roteiro da Literatura Angolana. UEA.

MARTINS, Mercedes Bertoli. Em câmara lenta: um jogo de armar.  ( Mestrado) UFSC, 1985

OLIVEIRA, Rosiska Darcy de. In: Mulheres militância e memória. RJ: FGV, 1996.

SERRANO, Carlos. O romance como documento social: o Caso Mayombe: In; Via Atlântica: SP, 1999.

 

 

 

 

 

 



[1] Benjamin ABDALA Jr. Literatura, História e Política. São Paulo: Ática, 1989

[2] Carlos SERRANO. O romance como documento social: o caso Mayombe. In: Via Atlântica –2, São Paulo, 1999.

[3] “Camera” Categoria narrativa estabelecida por Norman Friedman (1967) que, em tese, prevê a exclusão do autor.

[4] Ervedosa, Carlos. Roteiro da Literatura Angolana. Angola: União dos Escritores Angolanos

[5] Rosiska Darcy de OLIVEIRA. In: Mulheres, militância e memória. Rio de Janeiro: FGV, 1996

[6] Mercedes Bertoli MARTINS. Em câmara lenta: um jogo de armar. (Mestrado) – UFSC, 1985.